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Asics, a maratona dourada

Estava me preparando para a minha primeira maratona, a internacional de São Paulo, que seria dia 17 de abril de 2.016, quando apareceu a Asics São Paulo City Marathon, marcada para dia 31 de julho. Circuito inédito, me pareceu interessante. Já estava treinando, seria só esticar o treino mais 3 meses, ainda daria para melhorar a performance.. perfeito! Fiz a inscrição.

Fiz a maratona de SP, foi maravilhoso e já comecei a focar na Asics. Primeiro contratempo veio logo em seguida: começo de maio, quando ia começar a pegar pesado nos treinos, tropecei durante um treino funcional e torci o tornozelo. A princípio, nada grave, nenhuma fratura nem ruptura. Só precisava descansar, colocar gelo, o básico.

Mas nesta época meu pai, que mora em Ubatuba, uns 130 km da minha cidade, estava em estado terminal, câncer em metástase, eu estava indo direto para lá para ficar com ele e minha mãe. Neste período, sem chance de cuidar do pé e a lesão não regrediu. Ele faleceu em 16 de maio, e dias antes, tinha perguntado se eu iria fazer outra maratona. Respondi que sim, já estava chegando a próxima, ele, embora debilitado, sorriu. Aí, virou uma promessa!

Fiz fisioterapia, o pé melhorou e voltei a treinar. Frio intenso de inverno, comecei a sentir dor intensa nas costas, onde fiz cirurgia. Fiz um treino de 39 km, onde comecei a sentir dor desde o km24, parecia que estava sendo apunhalada. No final não conseguia ficar com as costas retas, nem respirar direito. Só terminei o treino por que, se desistisse, sabia que não ia conseguir encarar o desafio da maratona. Se doeu naquele dia, poderia acontecer o mesmo no dia da prova. Neste dia, não consegui nem dormir de dor e aí voltei no fisioterapia. Ele fez umas mágicas, as dores foram aliviando, comecei a fazer rpg, para melhorar a postura, deu certo.

Dia da prova, empolgação total! Como, por todos os transtornos, não tinha treinado adequadamente, estava totalmente desencanada com tempo, minha meta era, exclusivamente, cruzar a linha de chegada, de preferência, inteira. Meu namorado, Ricardo, me acompanhou de bike a partir dos 21km, foi mágico correr junto com ele.

E a corrida foi fantástica! Foi muito mais cansativa do que a primeira, por falta de preparo, mesmo, mas consegui fazer todo o percurso correndo, sem caminhar. Fiz algumas paradas, para tirar a roupa quente, quando o sol saiu. Parada inédita no posto médico: distribuíram uma esponja molhada no percurso e eu esfreguei nas pernas, que estavam cansadas, e não demorou muito para começar a dar uma coceira, a perna foi ficando vermelha, começou a inchar. Parei no posto, esfreguei álcool, melhorou.

Final de maratona, não consigo descrever a sensação de ver a placa de 41km! O coração dispara, bate uma emoção incontrolável, as lágrimas jorram. Mesmo exausta, acelerei o ritmo. Não eram mais as pernas que corriam, o controle passou para o Coração. Na reta final, a visão da linha de chegada me lavou a alma, dever cumprido, todos os obstáculos só fazem a conquista ser mais saborosa. Felicidade extra ver meus treinadores, minhas amigas e meu namorado me esperando pouco antes da chegada! Hi- five para todos e cheguei, Duas maratonas em pouco mais de 3 meses.

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Na largada, estava tocando Satisfaction, dos Rolling Stones. Na chegada, lembrei da música, por que completar a prova não me deixou satisfeita. Eu quero mais, eu quero muito mais!

 

Nove de julho, a minha revolução

Sábado, 7h,22 dias para a Maratona Asics Golden Run.

Treino: 36km

Mas eu não queria assim. Defini meta de 40km. Seria o treino para fazer o teste definitivo para a corrida.

Comecei o treino junto com minha amiga Lúcia, estávamos mantendo um ritmo dentro do previsto. No km24 nos separamos. Comecei a sentir dores nas costas e fiquei para trás. Diminui o ritmo e segui em frente, mas as dores só aumentavam, sentia como se fossem punhaladas nas costas, às vezes mal conseguia respirar. O desespero começou a bater. Não vou conseguir terminar o treino! E se acontecer isso na corrida? E agora, o que fazer?

Terminei mais uma volta, 30,600m. Paro ou continuo? Encontrei com os treinadores, combinei com eles onde eles estariam com água e pensei: qualquer coisa, volto com eles.

Decidi ir em frente, pelo menos até 38 km. Péssima decisão! 500m a frente tive que parar para respirar, muita dor. Corri mais um pouco, parei de novo. E de novo, e de novo e de novo! Doía tanto que eu não conseguia mais ficar reta, as lágrimas escorriam. Aí a cabeça começa a agir sozinha. A lógica seria parar, esperar o treinador e desistir. Se não der a maratona, desistir também.

Mas eu não treinei tanto para isso! Me revoltou pensar em desistir. Em vez disso, fui recordando do passado, das dificuldades e me veio a questão: por que continuar? Por que correr? Por que eu corro?

Eu corro por que eu POSSO correr, por que eu QUERO correr!! Não é a primeira vez que é difícil, já quase desisti em uma prova, mas não me permiti. Foi loucura, mas naquele momento eu gritei comigo: “Se eu fui até o fim daquela vez, vou de novo agora!” O tempo de desistir já passou. Nessa altura, estava nos 32km. Parei. Respirei, comi umas frutas e aliviei minha alma. Toda pressão, que eu mesma tinha colocado nos meus ombros, de manter performance, desapareceram. Só ficou a vontade de terminar. Nesse ponto, eu tinha decidido que ia fazer o treino da planilha, 36km. Então, fui em frente, foco total em cada passo, cada centímetro a mais é um centímetro a menos. De repente, só restou a alegria de correr, a expectativa da maratona. A dor estava lá, latejante, mas saiu do meu foco. O Foco era terminar. Deu 36km, eu continuei. Parei com 39km, muito muito muito feliz de ter completado. Neste treino, me conheci melhor. Nunca fiz análise, nem meditação, nada relacionado, mas senti minha mente dominar totalmente meu corpo, numa corrida selvagem, numa corrida livre. Liberdade, foi a palavra do dia!

Por Vânia Leme