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Próxima meta: chegar descansada- by Denise Kelen

Como comecei

Meu nome é Denise Kelen, tenho 34 anos, sou de São José dos Campos, mas moro em São Paulo há três anos e meio.

Comecei a correr (se é que posso chamar aquilo de corrida) em 2009, incentivada pelo meu pai, que sempre correu. Cresci vendo-o coordenar um grupo de corrida, na época chamado de Coraj (Corredores Associados Joseenses), e a sair de casa ao anoitecer, rumo à cidade de Aparecida do Norte (SP). Muitos corredores se reuniam no dia de Nossa Senhora Aparecida (12 de outubro) para essa empreitada de 100 km no asfalto.

“A temperatura a noite era melhor”, diziam. Muitos não chegavam ao destino, mas tenho recordações do meu pai entrando em casa, no dia seguinte, com bolhas e mais bolhas nos pés. Missão cumprida!

Pai da Denise em corrida de rua
Pai da Denise em corrida de rua

É interessante ver que ele, há mais de 30 anos, já fazia o que se tornou hoje uma profissão, uma atividade tão disseminada e procurada: a criação e participação em grupos de corrida. A prática se profissionalizou e agora tem um nome mais bonito, ‘assessoria’. Com o avanço das técnicas esportivas e da medicina preventiva, é claro que a prática do atletismo hoje também é feita com muito mais preparado e que a recuperação dos atletas conta com tratamentos de alta tecnologia.

Meu pai e os amigos da década de 50, sem saber, já faziam ‘treinos de montanha’, outro bonito nome usado atualmente. Mas como ele mesmo diz, “aquilo era correr em barrancos”. Ah, e você acha que nesse desafio para Aparecida, eles tomavam isotônicos e usavam coletes de neon ou qualquer outro elemento refletor para ser visto pela luz dos carros? Claro que não! A única coisa que levavam era fé e rapadura.

Durante muitos anos corri apenas 5 km com meu pai porque essa distância não exigia de mim treinos regulares ou muita disciplina. A rotina de aulas aeróbicas na academia era suficiente para encarar, às vezes, algumas provas curtas de corrida de rua. As participações em provas eram esporádicas. Até os 30 anos não existiam metas, sonhos e paixão pelo atletismo.

 

Quando quebrei

É curioso pensar que foi justamente quando me apaixonei pela corrida, que passei a ter novas companhias: três hérnias na lombar. Resultado da minha falta de conhecimento e consciência corporal e, principalmente, dessa minha ânsia em querer praticar atividade física sempre de forma impulsiva, sem nenhum tipo de preparo.

Foi quando essas novas ‘amigas’ surgiram que, por ironia e teimosia, aumentei os meus percursos. Ou seja, continuei fazendo a coisa certa, da maneira errada. Durante três anos, de 2012 a 2015, vivi com cores, falava mal da fisioterapia e participava de uma prova aqui, outra ali…. Entre um Tramal e outro, fazia 5km, depois10km, em seguida 16km. Aumentava a dose do Tandrilax, do Sedilax e insistia.

Durante esses anos, a dor ia, voltava, se acentuava nas filas de banco. Na balada com as amigas, a cena era: elas dançando e eu procurando uma cadeira. Para andar de metrô, um sacrifício: descia em algumas estações para sentar.

Até que o previsível aconteceu. Em 2015, na tentativa de fazer 21km, quebrei no km 17 e quase não consegui andar. Era o dia do meu aniversário, Meia Maratona de São Paulo. Achei que o fato de ser uma data especial e de eu estar ao lado de amigas queridas que eu mesma incentivei a participar fosse me ajudar a cruzar a linha de chegada menos cansada. No entanto, nesse dia, percebi que eu realmente precisava fazer o óbvio: treinar.

 

Quando recomecei

 Depois dessa prova (ou quase prova), minha lombar pulsava sem pausa, a dor irradiava e o formigamento nas pernas e pés veio para ficar. Foi aí que, junto ao medo de perder a mobilidade, de não poder mais correr e de continuar tendo que agachar no meio da rua, veio também a (atrasada) decisão de buscar ajuda em um tripé: pilates para alongamento e fortalecimento muscular; assessoria para orientações e exercícios educativos; nutricionista para alimentação sem leite condensado (risos).

Foi difícil receber o ‘diagnóstico’ de cada profissional que fui consultar. A professora do pilates imitou o meu modo de caminhar. O que era aquilo? Era assim que eu andava? Corpo solto, jogando o quadril para os lados. Ouvi dela que essa mesma região do meu quadril parecia uma pedra de gelo, sem nenhuma flexibilidade. O treinador da assessoria concordou com esse meu jeito ‘largado’ e do consultório da nutricionista eu saí com muita raiva.

Achei que ela foi rude na maneira de me apresentar os 31% de gordura que eu tinha no corpo e o ‘mapa’ da minha alimentação que era basicamente vermelho e amarelo. Senti raiva sim, mas daquela realidade. De fato, os alimentos verdes eram uma raridade no meu prato.

Em três meses, perdi 10 quilos. Esse sentimento ruim foi necessário para que eu focasse e atingisse os objetivos. Os famosos veneninhos brancos – leite, açúcar, arroz, sal, farinha de trigo – praticamente deixaram de fazer parte da minha rotina. Outra estratégia era pegar das prateleiras dos supermercados os alimentos que eu desconhecia ou que há muito tempo não consumia.

foto esquerda - antes do acompanhamento com profissionais foto direita - depois de perder 10k
foto esquerda – antes do acompanhamento com profissionais
foto direita : Depois do recomeço e perder 10k

Mas nenhuma estratégia funcionaria se eu não tivesse amigas que já se alimentavam de forma mais saudável e me inspiravam; se meus pais não mudassem o cardápio para me receber em suas casas e se meu marido não cozinhasse para nós, substituindo as batatas assadas pelos caldos de abóbora. Tenho a sorte de ter um Chef exclusivo.

Então, com todas essas mudanças meu desempenho numa meia maratona melhorou? Não! (risos). Neste ano decidi fazer a mesma prova, a Meia Maratona Internacional de São Paulo, mas me esqueci de trabalhar um quarto ponto fundamental nesse pilar das corridas de rua: a ansiedade.

Saí de casa apressada para chegar logo ao local da prova, o que prejudicou a minha alimentação. A grande vontade de correr e de concluir aqueles 21km de curvas e subidas que tinham me desafiado no ano anterior, me fez achar que uma banana com aveia era suficiente. E quem precisa de gel, não é mesmo? Mais uma vez, faltando cerca de 3km para finalizar, as minhas pernas pararam de me obedecer.

Essa nova frustração apenas comprovou que (ainda bem), sempre haverão novos erros e, assim, novas expectativas. É um ciclo.

Eu sigo na meta de, algum dia, terminar os 21 conseguindo controlar meu próprio corpo e como diria o meu pai “chegar descansada”!

Cross Run Taubaté 10k
Cross Run Taubaté 10k

“Deixe o esporte mudar a sua vida”

Há alguns dias o facebook me trouxe uma lembrança: os meus primeiros 5k. Essa lembrança me trouxe um filme em minha mente sobre minha trajetória até hoje na corrida.

A corrida entrou em minha vida com o convite de uma amiga, que já corria há um ano; ela me convidou para correr um dia com ela e me lembro que disse que não conseguiria nem 5 minutos. Mas mesmo assim fui, e conseguir fazer uma volta na praça de 1k no trote foi uma vitória, local hoje que treino semanalmente, mas as metas já são outras.

Comecei a correr não pela estética, mas porque precisava de algo para a mente, pois na época meu emocional estava frágil. Lógico que junto a prática da atividade vem muitos benefícios para saúde, como melhor alimentação além do corpo mudar bastante, mas para mim foram apenas conseqüências do esporte.

Realmente é incrível pensar quantas coisas aconteceram desde que comecei a correr, mudanças positivas na minha vida, tanto quanto social, físicas e emocionais. Muitos medos e desafios foram superados e coisas que nunca imaginei fazer, estou eu aqui hoje fazendo.

Quando fui para minha primeira corrida de 5k tive medo de não conseguir terminar, além de achar loucura aqueles que iam correr 10km. Eu fui e fiz os 5km, naquele momento um grande desafio não só físico mas psicológico foi quebrado e uma certeza: queria mais daquele sentimento de satisfação e alegria. E adivinha, alguns meses depois lá estava eu nos meus primeiros 10km , depois 15km e menos de um ano nos meus primeiros 21km.

Todas essas provas me trouxeram incertezas e medo, aquele medo de não terminar algo que você se prepara por um bom tempo sempre surgia, afinal na verdade é sempre uma disputa com você mesmo e mais ninguém. Cada treino e o aumento da distância era uma vitória e a sensação de que o grande dia estava chegando. E esse sentimento e ansiedade que o novo desafio traz se repete até hoje.

A corrida além do desafio físico, para mim é um desafio com sua própria mente, um desafio constante, que leva você cada vez mais a descobrir sobre você mesmo, seus limites, seus medos e o melhor: surpreender com a sua capacidade e determinação quando deseja algo. Um convite; um esporte, que entrou na minha vida sem nenhuma grande perspectiva e em um pouco mais de dois anos trouxe muitas mudanças, todas essas que me fizeram e me fazem crescer; e junto vem o sorriso e a certeza de que eu sou capaz.

“Deixe o esporte mudar a sua vida”